segunda-feira, 4 de abril de 2011

AAPAL - O ESPÍRITO NOVO: PARA QUE SERVE - FUNÇÕES DOS DIRIGENTES - PAPEL DOS SÓCIOS

Da experiência dos almoços-convívio entre ex-professores, ex-alunos e ex-funcionários da EICL durante vinte e cinco anos, germinou “a ideia da criação de uma associação que congregasse os antigos professores e alunos do Lobito, abrangendo todos os estabelecimentos de ensino ali existentes” (Nanda Almeida, Boletim Informativo nº 1: 3º Trimestre 2010, página 2, sublinhado meu) e não apenas a Escola Comercial e Industrial do Lobito. Se bem concebida, mais bem concretizada foi a ideia de fundar a AAPAL. 
Entretanto têm aparecido expressões camufladas e explícitas de membros da AAPAL que reflectem, às vezes, algum mal estar e conflito, como refere Nanda Almeida (ibidem) ao escrever: “não serão algumas manifestações de critica destrutiva, entretanto surgidas, que nos farão desviar dos objectivos que quisemos abraçar com convicção e denodo”. Isto fez-me pensar, trouxe-me à mente dois acontecimentos: um vivido por mim no Lobito e outro que ocorreu nos Estados da América.
Pouco tempo depois de ter chegado ao Lobito e ter começado a dar aulas no Liceu, apercebi-me que havia uma rivalidade nada sadia entre os alunos e alunas das várias escolas do Lobito, bem como entre os alunos e alunas dos Liceus do Lobito e Benguela, e até entre os diversos bairros da cidade - uma dimensão cultural enraizada em estereótipos e preconceitos.
Para fazer face a tais situações e alterar uma tal cultura relacional da malta nova, propiciadora de atitudes radicadas em preconceitos geradores de comportamentos de que ninguém se devia orgulhar, concebi e promovi diversas actividades, passeios, encontros… Os Passeios ao Gama com diversas actividades e jogos de interacção, a que ia gente do Lobito (Liceu,
Escola, Colégio Camões, …), Catumbela e Benguela (Liceu, …) são disso um exemplo. Existem suficientes fotografias dos Passeios ao Gama que o atestam. Ali ocorreram muitos encontros pessoais com adolescentes e jovens que não eram do LALA (a que eu especialmente estava ligado por lá ser professor), e aí nasceram muitas amizades. Disso fui testemunha e também comigo ocorreram. Amizades que ainda hoje persistem, como, por exemplo, com a Teresa Abreu e o “Nini”, ambos da Escola Comercial do Lobito. Os Encontros da Cabaia (zona próxima do cinema Flamingo) obedeceram também à mesma lógica e estendiam-se intencionalmente a adolescentes e jovens para além do LALA (minha base para as iniciativas circum-escolares). 
No entanto nunca pensei que desses e outros projectos circum-escolares, então concretizados, adviessem resultados muito evidentes ou muito palpáveis na perspectiva por mim intencionada, mas - que me lembre - nunca revelada. É muito difícil mudar culturas deste tipo num pequeno espaço de tempo!
Quarenta anos depois, um dia deparei com o texto que a seguir transcrevo:
Quando tento lembrar-me das pessoas, sem dúvida que não lembro o Prof Jorge, o Dr Jorge, o Jorge... lembro-me do padre Jorge. Aquela figura sorridente do Liceu, da JEC que nos levava para os passeios, para os encontros, para tantas actividades que me deixavam feliz, confiante e senhora do meu destino… (Mila Mendonça, no site Cidade do Lobito).
 A este texto respondi:
Embora o objectivo com que organizava todas aquelas actividades fosse o que vivenciaste ("me deixavam feliz, confiante e senhora do meu destino"), nunca pensei que elas fossem tão eficazes contigo… e, não sei, se também com os outros teus colegas… Ainda bem! (Jorge da Silva Ribeiro, no site Cidade do Lobito).
Essa felicidade vivenciada nos passeios, encontros e em tantas actividades com jovens doutras escolas, doutros bairros e doutras localidades com quem interagiam pode gerar confiança, segurança, auto-estima, admiração, amizade… e um tal efeito provavelmente começou a dissolver preconceitos que cada um teria a respeito dos outros. E sobretudo o experienciar com esses outros satisfação, alegria, felicidade… contribuiu para se irem diluindo aos poucos essas tais rivalidades bem como possíveis complexos de inferioridade e superioridade… E o que é que constatamos hoje? O alargamento dos que iniciaram almoços-convívio entre ex-professores, ex-alunos e ex-funcionários da EICL a todos os estabelecimentos de ensino do Lobito; e mais… a criação formal da AAPAL, que não marginaliza ninguém, que inclui todos, em que já não há outros, mas nós. Ainda bem que as minhas expectativas foram superadas! Todavia parece, ainda, subsistirem alguns resquícios das velhas rivalidades (fermento velho)… nalguns membros da AAPAL. É pena que o espírito novo que criou a AAPAL, não informe todos os seus membros, quaisquer que sejam as suas funções e status dentro da associação. Compreendo que Roma e Pavia não se fizeram num dia… como soe dizer-se, mas já é tempo… e sobretudo depois do que aconteceu… que tanto afectou e, por vezes, muito dramaticamente a vida de associados…
O outro acontecimento a que me referi, no início, ocorreu nos Estados Unidos e refere-se ao que John Kennedy disse um dia ao povo americano: não devem perguntar o que é que o País pode fazer por vocês, mas o que é que vocês podem fazer pelo País.
Isto leva-nos a perguntar: (1) para que serve a AAPAL? (2) qual é a função dos seus Dirigentes? e (3) dos outros Associados?
À primeira pergunta, poderíamos provisoriamente convencionar que a AAPAL é um espaço onde antigos alunos e professores de todas as escolas do Lobito poderão conviver, encontrar e fazer amigos, partilhar vivências e ajudar-se.
À segunda pergunta, é fácil dizer a resposta, mas é difícil concretizá-la. A função dos Dirigentes é servir e não servir-se. Os ganhos secundários são proibidos, como objectivo intencional. Tal constituiria uma perversão da sua função. Não podem servir-se da AAPAL como um palco para se exibirem. A sua visibilidade só lhes pode vir por acréscimo: porque cumprem a sua missão com generosidade, com altruísmo, com abnegação, isto é, porque fazem tudo o que podem para proporcionar aos membros da AAPAL condições, ocasiões para conviverem, encontrarem e fazerem novos amigos, partilharem vivências e ajudarem-se, ou o que estiver definido ou vier a ser definido nos Estatutos. A gratidão, o reconhecimento, o encómio, a visibilidade, as honras só devem advir por acréscimo, porque a missão foi bem cumprida. Para os sócios fundadores da AAPAL vai a minha admiração e gratidão pela generosidade e coragem que demonstraram e demonstram ao criarem e desenvolverem a Associação que nos inclui a todos os que não andamos na EICL. A minha interpretação do facto é que estão a fazer algo que se insere no espírito que me parece semelhante ao que eu tentei, já lá vão mais de quarenta anos! Bem hajam!
Respondendo à terceira pergunta, diria que aos sócios incumbe sintonizarem-se com aquilo para que serve a AAPAL: um espaço onde antigos alunos e professores convivam, encontrem e façam amigos, partilhem vivências e se ajudem. Os associados desviam-se do espírito novo que criou a AAPAL, quando se servem da associação para continuar ou ressuscitar velhas rivalidades, para ajustar contas ou quando tentam “fazer figura” à custa da associação, quando criam mau ambiente, quando divulgam meras suspeitas não comprovadas, quando suscitam animosidades, conflitos espirais ou destrutivos. Tenham a coragem de se excluírem da associação, se não concordam, nem se querem conformar com o espírito novo que criou a AAPAL.
Psicólogo - Professor no LALA



RETALHOS... (PERCURSO DE VIDA)

Abaixo da linha do Equador, acima do Trópico de Capricórnio, limitada ao Norte pela República do Zaire, pela Zâmbia a Leste, ao Sul a Namíbia. O Atlântico banha o seu Oeste e, aqui fica Angola, um antigo paraíso Africano, para sempre na memória de seus exilados.
Nada mais distante em termos geográficos, culturais e étnicos de seu colonizador: Portugal. A causa do exílio é do conhecimento geral e desnecessário é enveredar agora por essa seara.
É difícil falar sobre o assunto, voltar ao passado, reviver as situações: as gratas ou dramáticas; as comoventes e cruéis, emocionantes ou absurdas! Para quem não participou, pode parecer cansativo, incompreensível e até constrangedor.
Mas é muito fácil, quando se divide, com quem vivenciou, a mesma saga. As palavras fluem, as lembranças se atropelam, as vozes se sobrepõem. Sublimadas são as lágrimas e cúmplices as risadas! Saudosismo? Pode ser…
Sou uma exilada, é o que não posso negar, nem quero; seria negar a minha história. E, já que a minha história me é solicitada, achei necessária esta introdução.
Eu tive um pai maravilhoso. Um dia resolveu ir para África fazer safari e nunca mais voltou! Só as fotos dos bichos, das caçadas das paisagens!
A solução foi nós duas, a minha mãe e eu, irmos atrás dele. É claro que também não voltámos: Depois nasceram minha irmã e meu irmão e aí…acabou!
Fomos criados em fazenda de sisal que, em termos lucrativos, era a “soja” da época. Foi um tempo maravilhoso, tal como no filme “Out of África” meu pai era nosso Redford, lindo, criativo e brincalhão. Tudo o que fazia era perfeito.
Ele nos levava para as festas do povo, onde havia batucadas e danças rituais. Deixava que participássemos de tudo aquilo, mesmo porque, se não aparecíamos, vinham logo os moleques cercá-lo: TCHINDERE! OMORA WENDA PI?...
Foi ele quem primeiro me incentivou no interesse pela arte. Lembro dos blocos de desenho, dos lápis de cor com que me presenteava e, de como me instigava a reproduzir tudo o que via à minha volta.
Mais tarde nos mudámos para o Lobito, uma das cidades mais lindas de Angola. Litorânea, cosmopolita em função do porto que era o segundo mais importante do território.
Conheci então, na fase do ciclo preparatório ainda, o artista que mais me influenciou, principalmente no campo das ideias - Silva Pinto.
Posso compará-lo a um Di Cavalcanti talvez, pois se tratava de alguém inteiramente dedicado a retratar as suas raízes e toda a regionalidade da sua terra. Como qualquer pessoa pode observar, é disto que trata também o meu trabalho.
África é, de um modo geral, um colírio para os olhos, não só pela natureza exuberante, fauna exótica e variadíssima, céu esplendoroso onde o pôr-do-sol inspirava poetas e artistas plásticos de todas as correntes, mas também pela diversificação e criatividade do povo. O artesanato, o vestuário, os usos e costumes. Enfim, tudo muito peculiar e instigante! Amei aquilo apaixonadamente e vivenciei ao máximo, no sentido de transferir para o meu quotidiano, as referências do que significava ser Africano: na decoração dos ambientes, na alimentação e até na liberdade do pensamento.
Mas agora quero ser brasileira e me considero uma. A primeira imagem que gravei, ainda no avião, foi a do Cristo Redentor, de braços abertos. Acreditei, naquele momento, que era para nós que os abria! Acredito ainda pois a sua proteção jamais nos faltou, principalmente nos momentos mais difíceis.
Só podemos agradecer a este país incrível pelas oportunidades que nos ofereceu. Os cinco anos em que morámos no Rio de Janeiro, onde nasceu o meu filho mais novo, foram alegres e proveitosos.
Em trinta de Agosto de setenta e nove, mudámos para Uberaba e aqui, finalmente, encontrámos a paz de espírito e equilíbrio necessários para que eu pudesse retomar as minhas actividades artísticas (na verdade, totalmente abandonadas pelas bruscas mudanças de vida). Aqui cresceram nossos filhos, fizemos preciosas amizades e aqui temos vivido o segundo capítulo das nossas vidas.
Como já afirmei várias vezes, aqui é minha casa, minha terra, meu chão. Como deixar de retratar tudo nos mínimos detalhes, os lugares e as coisas do nosso dia a dia, para podermos mostrar um dia aos netos, já que o anterior se foi?
Cacoete (mania) de Silva Pinto? Trauma por tudo o que perdi? Não sei…só sei que é assim!
Fui professora de Desenho na Escola Preparatória Cerveira Pereira em Benguela, casei e fui logo mãe; em seguida a retirada de Angola, adaptação ao Brasil, as crianças pequenas…
Foi aqui em Uberaba que montei a Galeria de Arte Mombaka, como não podia deixar de ser, numa singela homenagem à cidade dos meus filhos angolanos. Do sucesso que, eventualmente, fizeram meus trabalhos na época de estudante poderão lembrar-se alguns professores se vivos forem. Minhas ex-colegas com quem perdi o contacto ou então minha família cuja opinião será, no mínimo, suspeita. Lembro com saudade minha professora de Desenho, D. Alzira Beatriz, proprietária do primeiro cinema-esplanada, o Cine Flamingo; Arquiteto Mendo que pegava meus desenhos e os mostrava à turma lá da sua mesa-secretária; Dra. Magui Mendo que me pedia, às vezes, modelos de roupa e acreditava piamente que poderia vir a ser uma “Coco Chanel”.
Portanto, agora, quero apenas expressar minha gratidão à vida, por tudo o que me tem sido proporcionado e fazer a minha parte, tendo sempre em mente:” A consciência do que é correto, sabendo que sou frágil e a capacidade de entender as fraquezas humanas, sabendo que posso ser forte”.

Aluna da EICL

ONDE ESTÃO, ONDE ANDAM...

Tenho à minha frente, sobre a secretária, os três exemplares do Boletim da AAPAL publicados até este momento.
Sobre o primeiro pouco para dizer a não ser que viu a luz do dia cheio de esperança, esperança fundamentada, também, no exemplo que os primeiros colaboradores nos deram. Entre eles só um ex-professor-Norberto Grabulho. Os demais eram estudantes no Lobito. Muitos não os conheço ou reconheço; nomes de gente trabalhadora, participativa, de quem se esperava muito.
O Lobito era uma cidade laboriosa!
Alguns membros fundadores da AAPAL falaram-nos dos propósitos, da cooperação, da solidariedade, da crença num porvir mais risonho, quiçá para aqueles menos felizes.
O segundo Boletim surgiu ainda em 2010; lá continuámos a encontrar memórias, recordações de alunos e professores mas, dos primeiros, só reapareceram dois - a Nanda Almeida e o Tó Costa. Outros antigos alunos? Nada!
E a estranheza continua e agrava-se com a saída do terceiro. Encontramos a decana dos professores, a ex-subdiretora da E.I.C.G.C., a professora Dulce Correia que, mau grado a idade, continua atenta e ativa colaboradora. Um exemplo! O professor Lino Barreto, ainda preocupado com a desdita de alguns Lobitangas, participativo e mestre. A professora Maria José Barreto dá-nos  conta do seu amor àquela terra e do seu trabalho na escola e fora dela. Alunos? Só a Nanda e o Tó…e os representados nas fotos. Indicações sobre futuras atividades relacionadas com os sócios, a AAPAL, etc.
Onde estão os antigos alunos que não nos dão o gosto da sua presença? Então, agora, a desproporção alterou-se? Antes, os professores eram uma percentagem mínima relativamente aos alunos. No hoje, no agora, dá-se o inverso. E havia alunos que se salientavam em várias áreas. Sumiram? Não estão entre nós? Perderam a (s) memória(s)? Não! Eu, por exemplo, encontro-os no Facebook, no site Cidade do Lobito e vejo que têm memórias daquele tempo maravilhoso, percursos de vida que merecem ser partilhados, apontamentos da diáspora. O que se passa com toda essa “malta”? Não é preciso ser escritor para colaborar. É só preciso querer. Receiam cometer algum erro? Aparecerá quem corrija, com a vossa permissão. Não vamos falar de política, de futebol, de religião…Vamos falar de nós! Todos temos problemas atuais, todos e, no entanto, cá estamos para provar que o Lobito não era uma cidade qualquer; era uma “sala de visitas” em Angola. E agora, quem nos visita, encontra a sala vazia? Façamos jus à fama que tínhamos! Lá havia sempre lugar para mais um e cabiam todos. Aqui há imensos lugares vazios na esperança de serem ocupados por uns que “não querem entrar” e por outros que” querem e não podem”. E olhem que eu sei do que falo.
Neste momento, se já foram ao site da AAPAL, leram os regulamentos, inteiraram-se dos seus desígnios. Ou não tiveram tempo para lá ir? Francamente, não acredito. Então em vez de estarmos orgulhosos de tudo o que muitos Lobitangas fizeram desde 1983 até hoje, dependendo unicamente da boa vontade de si mesmos, dos que vivem no Brasil, Bélgica, França, Suiça, Portugal, África do Sul e sei lá onde mais, baixamos os braços? E o contributo é tão pequeno! Já percebemos, pelo último exemplar da proposta de adesão que é precisa a nossa ajuda. E, se conhecemos alguém que queira associar-se mas não pode façamo-lo saber a quem pode arranjar solução.
E, já agora, onde andam alguns dos fundadores? Cansaram-se? Não têm nada para nos contar? Para nos mostrar? Para nos ensinar? Há médicos, botânicos, geólogos, advogados, professores, engenheiros, trabalhadores manuais entre os ex-alunos. Como foi o vosso percurso? Novidades sobre a vossa atividade profissional? Conselhos? Orientações? Força! Vamos a isto, Lobito em Portugal e no resto do mundo!


Professora na EP A. Henriques, EICL e Doroteias

terça-feira, 15 de março de 2011

CARTA A UM AMIGO AUSENTE

Meu caríssimo Jorge,

Já faz muito tempo que queria escrever-te esta carta, mas até agora, nunca tinha conseguido passar da primeira linha. Algo o impedia. Não sei se era o nó na garganta que sempre se instala quando me lembro de ti ou a avalanche de recordações que inevitavelmente ocupam a minha mente. Mas parece que agora consigo. Sabes, o tempo faz serenar a dor, e, a pena, com o tempo, parece transformar-se em saudade, esse doce sofrer, tão arraigado nas almas lusitanas.
Tiveste pressa em partir. E aos amigos que escolheram terras distantes para viver, não disseste nada. Simplesmente partiste. Eu queria fazer-te uma surpresa, mas quem amargamente se surpreendeu fui eu com a notícia da tua viagem definitiva.
Claro que o “Zeca” és tu. Todos os amigos daquele nosso tempo, que leram o meu primeiro livro, o nosso “Lobito”, souberam de imediato que eras tu. Mudei-te o nome e retoquei alguns detalhes sem importância. Mas o fundamental está lá. Tu, Jorge, que foste o meu melhor amigo dos tempos de juventude, ainda vives nas páginas do livro.
E também me lembrei dos teus queridos pais, as pessoas mais amáveis que eu conheci na vida. Recordo com carinho a doçura do falar da tua mãe, e a simpatia e a serenidade do senhor Alfredo Pereira, teu pai e meu amigo.
Não imaginas como me diverti na construção de cada página. Mesmo sem saberes, enquanto a caneta corria solta pelo papel, quase sempre estiveste ao meu lado. Algumas vezes rimos juntos, naquelas passagens mais alegres e triviais, e outras vezes compartilhámos as mesmas angústias. Afinal, falo da época em que tínhamos dezoito anos e éramos amigos inseparáveis. E tu és o único protagonista da história que não foi inventado. Estás lá tal como eras. Divertido, amante da vida, sonhador, gente boa e sobretudo, amigo.
Recordo as tuas sonoras gargalhadas, que sempre transmitiam optimismo e alegria. Recordo o tempo das nossas descobertas, quando deixávamos de ser meninos e começávamos a entrar no mundo complicado dos adultos. Recordo as nossas conversas pela madrugada fora, às portas do Pic-Nic. Éramos quase sempre seis ou sete, menos às segundas-feiras, quando a análise obrigatória da jornada futebolística do domingo, podia congregar uma dúzia ou mais de entusiasmados analistas. Mas nós não falávamos só de futebol e de miúdas. Muitas vezes abordávamos outros assuntos, mais sérios. Eu e tu estávamos sempre de acordo e tínhamos sempre razão. E o tempo demonstrou-nos quão fugazes são as certezas da juventude.
Acabávamos de cumprir o serviço militar e colocávamos a primeira pedra nos pilares da nossa vida de jovens adultos, quando um ciclone de dimensões históricas nos empurrou com força pelas costas. Quando acordámos da tormenta, já nada era igual, e, cada um tinha encontrado um porto de abrigo diferente. Encontrei o meu do outro lado do Atlântico. Tu preferiste, ou as circunstâncias assim determinaram, ficar por estas terras, onde o Infante D. Henrique, o nosso único herói que vale a pena, um dia sonhou com grandeza, o que, como vês, não passou de um sonho.
O tempo e a distância curam a dor, o desamor, o ódio e o sofrimento, empequenecem a paixão e o amor, mas nada faz estremecer uma amizade verdadeira, nascida na meninice e alimentada nas inconstâncias da juventude.
Jorge, meu querido amigo, descansa em paz. Toninho.

António Mateus

Aluno da EICL

terça-feira, 8 de março de 2011

“CAMINHADAS”

Apetecia-me caminhar…
Caminhar ao encontro de lugares onde pudesse admirar a natureza no seu estado mais genuíno.
Depois de percorrer todas as redondezas e, por vezes só, parava... Admirava as raras árvores (freixos) e algumas figueiras com frutos a amadurarem, que se misturavam com alguns marmeleiros, que amanhã seriam responsáveis pela muita marmelada que as mulheres da aldeia iriam fazer. Tal preciosidade, depois de confeccionada, iria ser posta em tigelas de porcelana, compradas na feira e tapadas com papel vegetal. Iriam ter os mais diversos destinos.
- Levem, levem, meus filhos!
Juntamente com as batatas, os carrapatos[1], os garavanços[2], o azeite, a abóbora, o vinho, a jeropiga, água-pé, cebolas, alhos, queijos, chouriças, morcelas de sangue com mel, requeijão, soro, as lembranças para os netos, e mais o milagre… de tudo caber no carro. Mais a bagagem que teria de voltar!
 Escutava as aves que se misturavam com as silvas carregadas de amoras. Os pássaros pareciam assustadiços; davam à asa logo que pressentiam barulhos que não eram de lá.
 Uma ou outra arriscava o canto! As cegonhas, mais ao longe, de pé sobre os ninhos, pareciam curiosas. Matraqueavam…
Depois de terem sido percorridos os caminhos da Santinha, Sapeira, Vale de STª. Marinha, Vale das Fontes, Fonte Grande, Urze, Rodel Cordeiro, a mais admirada das tapadas, Hortas de Vale de Raimundo a caminho de Nave Redonda e admirar a Cruz de Pedro Jacques de Magalhães que assinala a famosa batalha da Salgadela ou de Castelo Rodrigo, do tempo da Restauração da Independência de Portugal e até as sepulturas antropomórficas esculpidas no granito, anteriores aos romanos, muito perto do lagar de azeite, apetecia percorrer outros trilhos…
 Por que não até às arribas? Sim, lá para os lados do Rio Águeda?
- Queres vir? – o rapaz que estava enfronhado nos seus pensamentos, depois de hesitar,  apertou os nagalhos das sapatilhas de marca e resolveu tirar as nalgas do poial junto à porta dos avós e predispôs-se a dar à sola, não muito convencido.
- Vamos pela Carvalheira – atirou o tio.
Junto ao café, estavam os raparigos[3] que se encontravam de férias, sentados nos muretes dos bebedouros, onde as vacas, machos, ovelhas e burros saciavam a sede. E alguns pastores passavam as mãos por água e até lavavam o rosto já cansado!
Ao deixarmos as casas para trás, apareciam as tapadas feitas com muros de pedras sem argamassa e muitos prédios (terrenos sem muros), uns porque nunca se sentiram cercados e outros porque os seus donos começaram a vender as pedras de granito aos espanhóis. Quantas vendas!…
Enfeitavam os caminhos, os espinheiros bravos de flor branca e os pernoeiros que picavam sem dó e que se enfeitavam de flores amarelas desafiando os incautos curiosos.
Entre alguns carrascos e freixos, lá apareciam nos raros riachos, os saborosos poejos que eram comidos frescos em saladas ou chá quando secos; as famosas morujas apanhadas nos alvanares[4] onde as águas se tornavam mais límpidas, as azedas cabreiras miudinhas a nascerem junto às paredes protegidas por silvas e ainda as azedas compridas nascidas entre os fenos. Saladas sempre desejadas por quem chegava à aldeia, cioso de saciar-se com sabores que lhe faziam lembrar a infância. Eram comidas em pequenos molhos que se mergulhavam na malga com água, azeite e sal, acompanhadas por fatias dos grandes pães de centeio ou trigo, cozidos em fornos comunitários e fabricados pelas mulheres da aldeia. As saborosas azeitonas, retalhadas nos longos serões de Inverno à volta da lareira, que ainda aquecia água em panelas de ferro, eram o complemento constante dos petiscos.
Alguns caminhos tinham as marcas das rodeiras feitas pelos carros puxados por mulas.
- Arre cá, matcho!... - incitava o dono, quando o animal era obrigado a dar à anca em esforço, para responder ao puxar das rédeas e vencer a resistência de rochas que mostravam a crista entre os carreiros estreitos, emparedados por blocos de granito.
 Caminhos “semeados” de caganitas de ovelhas e bonicas das vacas, polvilhados de pequenos calhaus que eram chutados constantemente pelo jovem rapaz que não tirava os olhos do chão.
Por vezes, desviava-se dos “caroços de azeitona”, assim pareciam… não fosse alguma distracção pregar-lhe uma partida e tingir o seu calçado de estimação.
Quantos caminhos, caminhados… Percorridos e ficado para trás, tinham sido o Azeitairo, Monte, Caleiras, Pisões e aproximava-se a Horta da Senhora.
Era uma tapada bafejada pela natureza, salpicada de cardos floridos de cor azul. Com um lago artificial e que cercava um conjunto de póios que bem pareciam altares onde o gado bovino estava empoleirado e parecia espreitar a paisagem. Talvez a admirar o voo das abetardas que ignorando as linhas de fronteira, tratavam de sobrevoar as margens do rio para garantirem a sobrevivência!
- Onde estariam as oliveiras e as colmeias de que tanto se falava?
- Mais adiante, em terras de Maria Centeia.
- Continuamos?
- Ainda falta muito?
- Quando chegarmos à Broeira, já se verá o rio.
Ainda faltava mais muito!...
A máquina fotográfica tinha feito o registo das cores e sons da natureza, para quem não vira!...


* Conto de vivências em Terras de Riba Côa, na raia do Nordeste Beirão.
 
                                       - Mata de Lobos -
(Aluno da EICL)


[1] Feijão-frade.
[2] Grão-de-bico.
[3] Rapazes e raparigas de tenra idade.
[4] Buracos com pedras de onde brota água límpida.

quarta-feira, 2 de março de 2011

MÃOS QUE NÃO DAIS...

Mais próximo da utopia que do sonho Ernesto Guevara dizia que nenhum homem à face da Terra podia sentir-se livre enquanto houvesse um outro oprimido.
Na mesma linha de pensamento, aquele que tem mais do que precisa não pode sentir-se bem se há um que pouco ou nada tem.
Há os “sem abrigo” por vontade própria e há aqueles para quem a vida foi pior do que madrasta e nada têm porque ela, a vida, se perdeu, em alguns casos noutros continentes, sob o mesmo sol mas não sob o mesmo calor.
Passamos e olhamos para o outro lado talvez com receio de reconhecer aquele rosto, aqueles olhos porque o olhar já não é o mesmo. E seguimos sem ter mesmo coragem de contar “Sabes? Vi “fulano” como “sem abrigo” quando fui a Mafra, a Alcobaça”, sei lá…E calamos. E aquele que já se sentou na nossa carteira de escola, à nossa mesa, na mesma sala, no refeitório, no café, lá está, ainda.
Depois há os que têm abrigo material mas não têm vida própria, digna, porque ela lhes torceu os caminhos, os empurrou para junto de estranhas gentes e perderam o contacto com aqueles que seus companheiros foram durante, talvez não muitos, mas alguns anos. Deixaram de se ver, não se procuraram, preferiram-quem sabe? Até pensar que já não estavam entre nós. È mais cómodo! Isso de sermos irmãos é uma “treta”! Somo-lo enquanto “”, enquanto “interessa”.Não importa qual é o interesse mas ele existe.
     Perguntarão: - “Mas para e por quê toda esta conversa?”
Para vos dizer da revolta que sinto perante a indiferença, a frivolidade, a desumanidade que vejo à minha volta. Não sou melhor ou pior do que vós mas, estas situações perturbam-me o sono, assaltam-me à luz do dia e causam-me frustração por não poder fazer mais psíquica e materialmente.
E, ó trágica ironia, quando penso ter encontrado a “tábua” a que me agarro neste imenso mar de egoísmo e de “umbigo-dependência” constato que a mesquinhez, o “diz-se”, a inveja, a intriga, o ciúme, a calúnia gratuita, a má vontade, o “deixa andar”, a “solidariedade de café”, corroeram a tábua que eu supunha sólida, firme, pintada de esperança. A corrida ao protagonismo, os jogos de bastidores, as quesílias dispensáveis, a falta de diálogo olhos nos olhos, o oportunismo social prevaleceram em detrimento do bom senso, da justiça, da caridade, da generosidade, da solidariedade. Esqueceram o “outro”. Dividiram ao invés de unir; alimentaram a desconfiança em vez de a destruírem! Afinal, a quem serve o divisionismo? Quem lucra com ele, seja qual for a forma? A quem aproveita esta ribalta assente em arames e iluminada por falsa luz de amizade?
     Pois é! E voltamos ao caso da AAPAL.
É a essa associação que me refiro, a tal “tábua” a que me agarrei e não só eu, estou certa. Acreditei que podia ajudar e ser ajudada mas…Vejo, sinto grupos ativos na divisão; noto futilidade em vez de trabalho; “servir-se” em vez de “servir”. Já não somos irmãos? O que mudou? Em mim? Nada! Em alguns de vós? Não sei! Será que voltaram ao “eu” e esqueceram o “ele”? Voltaram ao “eu-este” e esqueceram o “outro” como sucedeu no “passado” que todos queremos esquecer?
Não é a democracia que anula esses tabus; é a nossa cabeça que tem de mudar isso, se é que em algum momento lá esteve. Perdoem se estou a ser injusta. Só escrevo o que sinto e partilho convosco.
Não somos todos iguais nem no nascimento nem na morte e muito menos na vida. Quando muito…semelhantes. Mas podemos irmanar-nos sempre que e dentro do possível. Os amigos são a família que escolhemos! Não nos escondamos! Não nos calemos! Falemos quando e onde é devido e deixemo-nos de “seguidismo” errado.
         Para mal da comunidade escolar que foi no Lobito nos idos anteriores ao Abril de setenta e quatro, um pouco dividida por razões que todos conhecemos e só interessa não esquecer para não repetir o erro, agora, quando mais premente se torna cultivar a união, a entreajuda, o espírito solidário, parece estar a querer germinar a semente da erva daninha que é o “divisionismo” porque “eu sou eu e tu és tu” quando queremos ouvir dizer “todos, somos nós”. Será que deixámos de falar a mesma Língua? Que não sabemos defender os nossos pontos de vista cara a cara, olhos nos olhos e os pés assentes na verdade?
Eu não vou por aí! Não vão por aí! Não vamos por aí! Não é esse o caminho!
Entendam-se!
 
                                                                       Por que esperais?

domingo, 9 de janeiro de 2011

COMO E PORQUE SE CRIOU A AAPALOBITO

Na génese da constituição desta Associação estiveram os muitos convívios anuais realizados desde 1983 pelos antigos professores e alunos da Escola Industrial e Comercial do Lobito. A partir de 2006, quando os convívios até então realizados naquele contexto passaram a ser extensivos aos professores e alunos dos restantes estabelecimentos de ensino existentes na cidade do Lobito à data anterior à independência da ex-colónia portuguesa de Angola, começou a germinar a ideia da criação de uma associação que congregasse essa antiga comunidade escolar, residente quer no nosso país quer na diáspora, dinamizando-a em outras vertentes.
Seria extremamente redutor criar-se uma associação com o único objectivo de realizar um convívio anual. Podia e devia-se ir mais além, potenciando as muitas capacidades existentes no seio dessa comunidade, nomeadamente nas artes plásticas, artes decorativas, literatura, da dança, da música e muitas outras, dando-as a conhecer à comunidade onde hoje estamos integrados, não descurando a, também importante, componente social.
A associação a criar deveria ser o pólo catalisador para a divulgação de todas essas potencialidades. Paralelamente criar estruturas para intervir socialmente junto da nossa antiga comunidade mais carenciada. Ideia arrojada, mas exequível, assim existam empenho, dedicação e boa vontade dos seus promotores e dos restantes interventores.
Foi com base nestes pressupostos que, em 23 de Outubro de 2009, um grupo de antigos alunos do Lobito se decidiu constituir a AAPAL(*). Contaram com a boa vontade, o espírito solidário que os unia antes, lá, onde alguns nasceram e todos viveram muitos anos da sua vida. Esse espírito “transportou-se” quando saíram de Angola e se, ao longo de vinte e cinco anos, souberam reencontrar-se, conviver, no sentido real da palavra, acreditaram que continuariam a dar-se as mãos, olhando uns pelos outros, tentando indagar do “onde”, “como”, “quem”, ”quando”?
Hoje, poderá dizer-se que a AAPAL existe, foi criada para servir os seus associados e será aquilo que eles quiserem que ela venha a ser. Importa dar continuidade ao trabalho até aqui desenvolvido, importa que haja uma maior intervenção dos seus associados, importa “não deixar morrer o sonho”. Importa mostrar a nossa vitalidade, a nossa capacidade de intervenção e mostrar aos vindouros que não foi obra do acaso o legado que a nossa geração e a dos nossos antepassados deixou em Angola. A nossa missão não acabou aí e, por conseguinte, devemos honrar esse legado, dando-lhe continuidade através da AAPAL e, em simultâneo, honrar a memória daqueles que já partiram (professores, funcionários e alunos), mantendo a amizade, a união, a solidariedade e o “espírito lobitanga” que nos caracterizou.
Saímos do “jardim” a contragosto mas “somos o Lobito escolar fora de Angola” e a AAPAL é a prova legal da nossa existência activa.

(*) Os documentos oficiais respeitantes à criação da AAPAL podem ser consultados em http://www.aapalobito.org/