
Nada mais distante em termos geográficos, culturais e étnicos de seu colonizador: Portugal. A causa do exílio é do conhecimento geral e desnecessário é enveredar agora por essa seara.
É difícil falar sobre o assunto, voltar ao passado, reviver as situações: as gratas ou dramáticas; as comoventes e cruéis, emocionantes ou absurdas! Para quem não participou, pode parecer cansativo, incompreensível e até constrangedor.
Mas é muito fácil, quando se divide, com quem vivenciou, a mesma saga. As palavras fluem, as lembranças se atropelam, as vozes se sobrepõem. Sublimadas são as lágrimas e cúmplices as risadas! Saudosismo? Pode ser…
Sou uma exilada, é o que não posso negar, nem quero; seria negar a minha história. E, já que a minha história me é solicitada, achei necessária esta introdução.
Eu tive um pai maravilhoso. Um dia resolveu ir para África fazer safari e nunca mais voltou! Só as fotos dos bichos, das caçadas das paisagens!
A solução foi nós duas, a minha mãe e eu, irmos atrás dele. É claro que também não voltámos: Depois nasceram minha irmã e meu irmão e aí…acabou!
Fomos criados em fazenda de sisal que, em termos lucrativos, era a “soja” da época. Foi um tempo maravilhoso, tal como no filme “Out of África” meu pai era nosso Redford, lindo, criativo e brincalhão. Tudo o que fazia era perfeito.
Ele nos levava para as festas do povo, onde havia batucadas e danças rituais. Deixava que participássemos de tudo aquilo, mesmo porque, se não aparecíamos, vinham logo os moleques cercá-lo: TCHINDERE! OMORA WENDA PI?...
Foi ele quem primeiro me incentivou no interesse pela arte. Lembro dos blocos de desenho, dos lápis de cor com que me presenteava e, de como me instigava a reproduzir tudo o que via à minha volta.
Mais tarde nos mudámos para o Lobito, uma das cidades mais lindas de Angola. Litorânea, cosmopolita em função do porto que era o segundo mais importante do território.
Conheci então, na fase do ciclo preparatório ainda, o artista que mais me influenciou, principalmente no campo das ideias - Silva Pinto.
Posso compará-lo a um Di Cavalcanti talvez, pois se tratava de alguém inteiramente dedicado a retratar as suas raízes e toda a regionalidade da sua terra. Como qualquer pessoa pode observar, é disto que trata também o meu trabalho.
África é, de um modo geral, um colírio para os olhos, não só pela natureza exuberante, fauna exótica e variadíssima, céu esplendoroso onde o pôr-do-sol inspirava poetas e artistas plásticos de todas as correntes, mas também pela diversificação e criatividade do povo. O artesanato, o vestuário, os usos e costumes. Enfim, tudo muito peculiar e instigante! Amei aquilo apaixonadamente e vivenciei ao máximo, no sentido de transferir para o meu quotidiano, as referências do que significava ser Africano: na decoração dos ambientes, na alimentação e até na liberdade do pensamento.
Mas agora quero ser brasileira e me considero uma. A primeira imagem que gravei, ainda no avião, foi a do Cristo Redentor, de braços abertos. Acreditei, naquele momento, que era para nós que os abria! Acredito ainda pois a sua proteção jamais nos faltou, principalmente nos momentos mais difíceis.
Só podemos agradecer a este país incrível pelas oportunidades que nos ofereceu. Os cinco anos em que morámos no Rio de Janeiro, onde nasceu o meu filho mais novo, foram alegres e proveitosos.
Em trinta de Agosto de setenta e nove, mudámos para Uberaba e aqui, finalmente, encontrámos a paz de espírito e equilíbrio necessários para que eu pudesse retomar as minhas actividades artísticas (na verdade, totalmente abandonadas pelas bruscas mudanças de vida). Aqui cresceram nossos filhos, fizemos preciosas amizades e aqui temos vivido o segundo capítulo das nossas vidas.
Como já afirmei várias vezes, aqui é minha casa, minha terra, meu chão. Como deixar de retratar tudo nos mínimos detalhes, os lugares e as coisas do nosso dia a dia, para podermos mostrar um dia aos netos, já que o anterior se foi?
Cacoete (mania) de Silva Pinto? Trauma por tudo o que perdi? Não sei…só sei que é assim!
Fui professora de Desenho na Escola Preparatória Cerveira Pereira em Benguela, casei e fui logo mãe; em seguida a retirada de Angola, adaptação ao Brasil, as crianças pequenas…
Foi aqui em Uberaba que montei a Galeria de Arte Mombaka, como não podia deixar de ser, numa singela homenagem à cidade dos meus filhos angolanos. Do sucesso que, eventualmente, fizeram meus trabalhos na época de estudante poderão lembrar-se alguns professores se vivos forem. Minhas ex-colegas com quem perdi o contacto ou então minha família cuja opinião será, no mínimo, suspeita. Lembro com saudade minha professora de Desenho, D. Alzira Beatriz, proprietária do primeiro cinema-esplanada, o Cine Flamingo; Arquiteto Mendo que pegava meus desenhos e os mostrava à turma lá da sua mesa-secretária; Dra. Magui Mendo que me pedia, às vezes, modelos de roupa e acreditava piamente que poderia vir a ser uma “Coco Chanel”.

Aluna da EICL
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